20.3.07

Tunel do tempo...

Nos últimos 20 anos muita coisa mudou. Principalmente, eu mudei.
Numa inexplicável(?) onda de saudade(?), alguns fantasmas estão me assombrando. Antigas cicatrizes abriram, e lá do fundo do baú, no meio de muita poeira e teias de aranha, revejo fotos antigas, recortes guardados, velhos sentimentos.
O texto abaixo foi escrito por Caio Fernando Abreu para o Caderno 2 dO Estado de São Paulo, provavelmente em 1985 ou 1986. Não sei exatamente a data porque este recorte me acompanhou durante anos, indo de uma agenda pra outra, de uma decepção até a próxima paixão. Como naquele tempo a internet não era popular, eu me lembro de ter fotocopiado e enviado pelo correio para alguns amigos.
Nada é por acaso. Vendavais de lembranças trouxeram de volta este pedaço de papel pra que eu o partilhasse por aqui.
AO SOM DE SUZANNE VEGA
(Caio Fernando Abreu)

"Meu nome é Caio F. Moro no segundo andar, mas nunca encontrei você nas escadas."

"Preciso de alguém, e é tão urgente o que digo. Perdoem as excessivas, obscenas carências, pieguices, subjetivismos, mas preciso tanto e tanto. Perdoem a bandeira desfraldada, mas é assim que as coisas sã0-estão dentro-fora de mim: secas. Tão só nesta hora tardia – eu, patético detrito pós-moderno com resquícios de Werther e farrapos de versos de Jim Morrinson, abaporu heavy-metal -, só sei falar dessas ausências que ressecam as palmas das mãos de carícias não dadas.
Preciso de alguém que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha boca para, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o astral, o ritmo, a over, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como – eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano que habita a concha ao lado da concha que você habita, e da qual te salvo, meu amor, apenas porque te estendo a minha mão.
No meio da fome, do comício, da crise, no meio do vírus, da noite e do deserto – preciso de alguém para dividir comigo esta sede. Para olhar seus olhos que não adivinho castanhos nem verdes nem azuis e dizer assim: que longa e áspera sede, meu amor. Que vontade, que vontade enorme de dizer outra vez meu amor, depois de tanto tempo e tanto medo. Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o meu próprio – tão cansado, tão causado – qualquer coisa vasta e abstrata quanto, digamos assim, um Caminho. Esse, simples mas proibido agora: o de tocar no outro. Querer um futuro só porque você estará lá, meu amor. O caminho de encontrar num outro humano o mais humilde de nós. Então direi de boca luminosa de ilusão: te amo tanto. E te beijarei fundo molhado, em puro engano de instantes enganosos transitórios – que importa?
(Mas finjo de adulto, digo coisas falsamente sábias, faço caras sérias, responsáveis. Engano, mistifico. Disfarço esta sede de ti, meu amor que nunca veio – viria? Virá? – e minto não, já não preciso).
Preciso sim, preciso tanto. Alguém que aceite tanto meus sonos demorados quanto minhas insônias insuportáveis. Tanto meu ciclo ascético Francisco de Assis quanto meu ciclo etílico bukovskiano. Que me desperte com um beijo, abra a janela para o sol ou a penumbra. Tanto faz, e sem dizer nada me diga o tempo inteiro alguma coisa como eu sou o outro ser conjunto ao teu, mas não sou tu, e quero adoçar tua vida. Preciso do teu beijo de mel na minha boca de areia seca, preciso da tua mão de seda no couro da minha mão crispada de solidão. Preciso dessa emoção que os antigos chamavam de amor, quando sexo não era morte e as pessoas não tinham medo disso que fazia a gente dissolver o próprio ego no ego do outro e misturar coxas e espírito no fundo do outro-você, outro-espelho, outro-igual-sedento-de-não-solidão, bicho-carente, tigre e lótus. Preciso de você que eu tanto amo e nunca encontrei. Para continuar vivendo, preciso da parte de mim que não está em mim, mas guardada em você que eu não conheço.Tenho urgência de ti, meu amor. Para me salvar da lama movediça de mim mesmo. Para me tocar, para me tocar e no toque me salvar. Preciso ter certeza que inventar nosso encontro sempre foi pura intuição, e não mera loucura. Ah, imenso amor desconhecido. Para não morrer de sede preciso de você agora, antes destas palavras todas caírem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer eu te amo outra e outra vez. Como se fosse possível, como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã."


7 comentários:

Sheherazade disse...

Caraca, Ana Carla! E esse menino só tinha 20 anos quando escreveu esse apelo, hein? Imagina o que direi eu, do alto dos meus tantos anos ...Ai, ai!
Parabéns pela escolha.

Um beijão!

Márcia(clarinha) disse...

Que coisa né?
Leio e releio e leio de novo daí fico sem saber o que comentar e volto pra ler,rsss
Saudades minha flor
lindo dia
beijosssssssssss

Lili disse...

Como disse Proust: "Só se ama o que não se possui completamente". É a eterna busca, minha nega. Fazer o quê? Beijos!

Dono do B disse...

Eu te entendo,amiga. Também sei onde quer chegar com esse texto do Caio. Mas, sobretudo, tenha calma...muita calma.

Beijos.

DB.

Armando disse...

Sessão carência com excesso de progesterona,rsrsrs. Cuidado! Isso costuma dar uma ressaca braba, rsrs. Já experimentou abandonar a procura e deixar-se ser encontrada? Muitas vezes buscamos tão longe a felicidade que está ao nosso lado! Bjks.

Anne disse...

Que texto lindo! Merece realmente ser guardado ainda por muitos anos!

Bjos!!

Renata disse...

Oi, Ana Carla!
Achei esse recorte do texto do Caio F. essa semana, e fui ver se achava na internet prá imprimir.
Apareceu seu blog, e nesse post a apresentação feita por você foi exatamente o que aconteceu comigo!
Imprimi, aí fui dar uma olhadinha no blog. Agora, depois de ligar prá Carminha Rangel, tenho quase certeza que você é a amiga dela que mora em Jardinópolis...É mesmo?
Beijo,
Renata