5.10.06

Os pássaros, a canção e a pressa




Considerações sobre a indústria da urgência e o caso de um brasileiro que escapou dela
(Roberto Pompeu de Toledo)



Houve um tempo em que quem falava sozinho na rua era considerado louco. Hoje, em nove caso em dez, trata-se do portador de um telefone celular, pessoa considerada normal. Esta observação, como já terá adivinhado o leitor, vem a propósito da morte desse grande brasileiro que foi Antonio Carlos Jobim, mas vamos por partes, começando com um retrospecto do que tem sido a aventura humana neste século.

A aceleração do tempo é uma das características do século XX, talvez a principal delas. As coisas chegam e vão embora com impressionante rapidez. Flâmula – quem se lembra desse objeto? Nos anos 50 e 60, não havia quarto de rapaz que não fosse decorado com flâmulas, essa espécie de bandeira triangular homenageando clubes ou universidades, cidades ou países. As flâmulas chegaram, fizeram grande sucesso e foram embora. O bambolê teve a mesma sorte.

O século XX viu nascer e morrer o long-playing, o comunismo, o Zeppelin, Che Guevara, a admiração por Che Guevara, John Kennedy, a admiração por John Kennedy, o charleston, o musical de Hollywood, a Iugoslávia, o radinho de pilha, os hippies, os yuppies, o bonde elétrico, o Concorde, as viagens espaciais tripuladas, o surrealismo, o gramofone a vitrola de alta fidelidade (“hi-fi”), o hidroavião, o concretismo, o disco de 78 rotações e a União Soviética. Algumas invenções pareciam irremediavelmente destinadas à obsolescência quando experimentaram um espetacular retorno. Exemplo: camisinha. Outras pareciam destinadas a um espetacular retorno quando experimentaram o fracasso. Exemplo: o Cometa de Halley, que fez enorme sucesso em 1910 e falhou em 1986.

Pode-se alegar que em outros séculos também houve costumes, tecnologias e cometas de vida breve. Não como no século XX, nem em quantidade nem em velocidade. No curto espaço de cinqüenta, sessenta ou setenta anos passou-se do 14-Bis ao Boeing 747, da Maria-fumaça ao Trem-bala, da navalha ao aparelho Gillete Sensor, do cinema mudo ao vídeo laser, do lampião a gás ao forno microondas. Como resultado, a própria velocidade do tempo passou a ser um valor em si. Se as coisas não andam depressa, ficam aborrecidas. Parar é chatear-se, e lá vamos nós: a gastança do tempo, a gula de digeri-lo, o consumo compulsivo – desesperado dir-se-ia – dessa substância sem cor nem cheiro chamada tempo passou a ser a mais invencível dependência do período, a droga mais mortal. Esta é a hora dos excitados.

Nesse processo, uma das criações mais características do século foi a indústria da urgência. É preciso correr atrás do tempo. Ou correr na frente, melhor ainda. Chegar antes dele, fazer uma hora em menos de uma hora, eis o ideal. Quem não consegue capota, está fora do ritmo, fora de seu tempo, e pronto – com isso chegamos ao telefone celular. Ele é a culminância apoteótica da indústria da urgência que caracteriza estes nossos anos. Contabilize o leitor com rigor científico: quantas vezes deu na vida, ou recebeu, um telefonema realmente urgente? Algo que não pudesse esperar meia hora, até o próximo orelhão? Comunicados realmente urgentes não são um acontecimento cotidiano. A rigor, ao longo de uma vida, talvez não sejam dois ou três – excetuando o caso dos médicos, que já têm bip e não precisam de telefone celular.

E no entanto os celulares se multiplicam como saúvas, brotam como capim. Centenas deles, milhares, entram em circulação a cada dia. As pessoas na rua portam o aparelhinho como se fosse uma nova peça do vestuário, ou um novo complemento, como o guarda-chuva – ainda que mal comparado, pois o guarda-chuva, em sua silenciosa dignidade, não toca, não fala e nem é histérico como o telefone celular. De repente um monte de gente percebeu que tem pressa, não pode esperar, que é urgente chamar, é urgente ser chamado, é urgente, é urgente, é tudo tão urgente...

Antonio Carlos Jobim não tinha nada a ver com isso, e é por isso que é lembrado nestas linhas. Era um homem de vagares. Gostava de passarinhos, árvores, canções e poesia, quatro produtos fora do alcance da indústria da urgência. Ele andou na contramão da mistificação da pressa que se abateu sobre as vidas da esmagadora maioria de seus contemporâneos. E porque tinha uma outra percepção do tempo conseguiu, mesmo num território do efêmero como da música popular, deixar uma obra que o ultrapassa, em duração.
(Veja, ed.1371, p. 150)


23 comentários:

Alequites disse...

Salve, menina Peixes!
Adorei o texto.
Beijos e ótimo dia!

Márcia(clarinha) disse...

Eitha querida,
li só a metade tô correndo como o coelho de Alice, volto no fim da tarde, me espera?
ailoviuuuuu
lindo dia flor
beijossssssssssss

desassistidas disse...

Oi Ana Carla, vim conhecer o seu blog, realmente Jobim era tudo de bom...ah e eu amo falar sozinha.
abraços,
THA

Ordisi disse...

E pensar que o tempo é uma mera ilusão sensorial.

[Tratado com rigor matemático, aflora a verdade do tempo ser apenas uma coordenada, sujeita às leis da relatividade.]

:)

Beijos.

Dono do Bar disse...

Jobim tinha "timing", que lhe foi ensinado pelo seu amigo Sinatra. Essa idéia de comportamento com relação ao que nos cerca, me agrada muito. Pena que eu seja cheio de tomadas.

Beijos, linda.

DB.

Tiago disse...

sensacional!

Sheherazade disse...

Afe! Essa febre de celular irrita, mesmo. Tu acreditas que o meu filho tem o desplante de me ligar, a cobrar (é claro, filho só liga assim)pra perguntar se alguém ligou pra ele? É mole? Daí, o que eu faço? desligo sem responder ... rsrsrsrsrsrs.

Um cheiro!

Kafé Roceiro disse...

Gostei imensamente!

Márcia(clarinha) disse...

Lindo dia querida!!
beijosssssssss

Anônimo disse...

Ana amiga, juro que se eu pudesse eu lia tudo isso e fazia um comentário, mas aqui tá super híper corrido e nem computador eu tenho ainda!!! Assim que tudo voltar ao normal, eu volto ok?
Beijos

Anônimo disse...

sou eu a Sheila!!!

Lili disse...

Este texto bem que poderia ter sido escrito por (ou em parceria com) o Marco das Antigas Ternuras. É a cara dele, não? Lindíssimo! Desejo-lhe um ótimo fim de semana!

Marilyn disse...

Eu converso comigo mesma.
Muitas vezes, até sozinha também.
E o pior... em inglês.
.
.
.
Beijo!

paulo vigu disse...

Ana - Belo texto sobre o que a indústria da urgência não consegue pegar. É assim que ando também. Essa indústria que se dane. Vago atrás do que é simples, gente simples, como nós. Ah - amar - o que fazemos é a força pra expelir esse tipo de indústria. Riodaqui manda beijo aí - Paulo Vigu

DO disse...

Aceleração do tempo? Corrida?Correria??
Oportuníssimo este texto,hehehe
Beijão,ANA.
Otimo fds a vc

Márcia(clarinha) disse...

Noite linda,linda
Noite feliz,feliz
te gosto flor
beijosssssssssssss

armando disse...

O celular está mesmo escravizando as pessoas. Ficam hipnotizadas e absortas olhando na tela, como em uma redoma. E a falta de educação então? Expõem seus assuntos em alto som, como se todos precisassem saber daquilo. Tô fora. Detesto celular. Adoro teu blog. Bjks.

Leão disse...

Olá Ana Carla
Obrigado pela visita e o comentário no meu blog. Apareça sempre.
Gostei do seu site.
um abraço
Leão
Quintal do Leão

Marco Santos disse...

Querida Ana Carla,
Muito bom este texto do Pompeu. Noutro dia, eu estava num barzinho comentando com amigos sobre a premência do tempo que herdamos do Século 20. Quando este século começou, as pessoas andava a cavalo. Antes da metade do século já se tinha quebrado a barreira do som.
Veio o celular. Essa extensão de nosso corpo. Eu sou uma das poucas pessoas do rio de Janeiro que desliga o bichinho dentro do cinema. Manias de velho que tenho, isso de seguir os regulamentos, e não interferir nos direitos dos outros, coisas que estão fora de moda, eu sei. Mas, sou um saudosista. Curiosamente, hoje um celular salvou o espetáculo que faço. Um dos atores estava preso num engarrafamento brabo na Barra. Se ele não tivesse celular e ligasse pra nós, talvez cancelaríamos a peça hoje.
Mas o Pompeu tem toda a razão. Construímos uma indústria de urgências que faz com que o tempo não caiba dentro do tempo. Excelente este post. Deu ótimos assuntos para conversas com amigos. Beijos procê.

Claudinha disse...

Oi Ana Carla, eu "ando devagar porque já tive pressa"... Aprendi na marra. Texto excelente! Temos que aprender a tirar o que é bom de tudo, passado e presente...
Beijos!

Márcia(clarinha) disse...

Kd você minha querida?
Vai nos brindar com novo texto não é? rs
Lindo domingo cheio de saudade de você também..
beijossssssssssss

Erica disse...

Vez ou outra a Veja publica coisas bonitas. Que bom que vc reproduziu aqui. Sobre seu comentário no meu blog, concordo plenamente, nos roubaram o sonho. Bjo e boa semana

Marcos disse...

Quase tudo o que RPT escreve eu assino em baixo, e nesse caso não é diferente. A urgência tem nos feito abandonar coisas que antes nos eram caras, prazerosas. É um dos motivos pelos quais prefiro morar no interior onde, mesmo com as urgências do dia a dia, nos sobra mais tempo para as coisas boas.